No universo da renda fixa, poucas combinações são tão atrativas quanto isenção de IR + rentabilidade acima do CDI. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e de Recebíveis do Agronegócio (CRA) oferecem exatamente isso — mas com características importantes que o investidor precisa conhecer antes de aplicar.

Este guia completo explica como funcionam o CRI e o CRA, quais são seus riscos, como analisar a qualidade do crédito e como compará-los com LCI, LCA e debêntures incentivadas.

O Que São CRI e CRA?

CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) é um título de crédito emitido por securitizadoras lastreado em recebíveis do setor imobiliário. Os recebíveis podem ser contratos de compra e venda de imóveis, contratos de locação ou outros créditos imobiliários.

CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) funciona da mesma forma, mas os recebíveis são do setor agrícola: contratos de fornecimento de insumos, financiamentos a produtores rurais, exportação de commodities, entre outros.

Ambos são emitidos por securitizadoras — empresas que compram recebíveis de empresas do setor e emitem os certificados para captar recursos. Os principais emissores são Brooksfield, Vert, Isec, True e Virgo (CRI) e Octante, Eco Securitizadora e Vert (CRA).

Como Funciona na Prática?

  1. Uma incorporadora imobiliária ou agronegócio tem um fluxo futuro de recebíveis (ex: parcelas de imóveis vendidos)
  2. Eles "vendem" esses recebíveis para uma securitizadora
  3. A securitizadora emite CRI ou CRA lastreados nesses recebíveis
  4. Você investe no CRI/CRA e recebe os juros conforme o fluxo dos recebíveis subjacentes

Isenção de Imposto de Renda

Assim como LCI e LCA, o CRI e o CRA são isentos de IR e IOF para pessoa física — vantagem criada por lei para incentivar o financiamento do setor imobiliário e agrícola brasileiro.

Essa isenção está prevista na:

  • Lei 9.514/1997 (CRI)
  • Lei 11.076/2004 (CRA)

A isenção é exclusiva do investimento direto — fundos que investem em CRI/CRA não repassam esse benefício ao cotista.

Rentabilidade Típica em 2026

Em março de 2026, os CRIs e CRAs disponíveis no mercado secundário costumam oferecer:

IndexadorFaixa de taxaPerfil de risco
IPCA +IPCA + 6% a IPCA + 9% ao anoMédio a alto
CDI +CDI + 1% a CDI + 3% ao anoMédio
Pré-fixado13% a 17% ao anoMédio a alto

Essas taxas são superiores às das LCIs e LCAs, que costumam pagar entre 88% e 100% do CDI ou IPCA + 4% a 5%. A diferença reflete o maior risco de crédito e a ausência de cobertura do FGC.

A Grande Diferença: CRI/CRA vs. LCI/LCA

Embora todos sejam isentos de IR, há diferenças fundamentais:

CaracterísticaLCILCACRICRA
Isenção de IRSimSimSimSim
Proteção FGCSim (até R$ 250k)Sim (até R$ 250k)NãoNão
EmissorBancosBancosSecuritizadorasSecuritizadoras
Lastreado emCréditos imobiliáriosCréditos agrícolasRecebíveis imobiliáriosRecebíveis agrícolas
Rentabilidade típicaMenorMenorMaiorMaior
Risco de créditoBaixo (banco)Baixo (banco)Médio a altoMédio a alto
LiquidezMédiaMédiaBaixaBaixa
Investimento mínimoR$ 1.000 a R$ 5.000R$ 1.000 a R$ 5.000R$ 1.000 (mercado secundário)R$ 1.000 (mercado secundário)

O ponto crítico é a ausência de FGC: ao contrário das LCIs e LCAs emitidas por bancos, o CRI e o CRA não têm garantia do Fundo Garantidor de Créditos. Se o devedor subjacente der calote ou a securitizadora tiver problemas, você pode perder parte do capital.

Para entender mais sobre o FGC e como ele protege outros investimentos, consulte nosso guia sobre como funciona a garantia do FGC.

Análise de Risco de Crédito no CRI e CRA

Como não há FGC, a análise do crédito é fundamental. Antes de investir, verifique:

1. Qualidade do Devedor

Quem é o devedor principal? Grandes empresas de capital aberto (MRV, JSL, Raízen, Marfrig) têm balanços auditados e menos risco do que PMEs regionais. Prefira devedores com rating de crédito B+ ou superior.

2. Estrutura de Garantias

Bons CRIs/CRAs têm estruturas com garantias adicionais:

  • Alienação fiduciária de imóveis (para CRI)
  • Penhor de estoques ou safra (para CRA)
  • Fiança ou aval da empresa originadora
  • Fundo de liquidez

3. Rating da Emissão

As principais agências de rating no Brasil (Fitch, Moody's, S&P, Austin) avaliam a qualidade das emissões. Ratings acima de AA são os mais seguros; abaixo de BBB, o risco aumenta significativamente.

4. Série e Estrutura da Emissão

Algumas emissões têm estruturas seniores e subordinadas. Cotas seniores são pagas primeiro em caso de inadimplência — prefira sempre a série sênior.

Liquidez: O Principal Ponto de Atenção

CRIs e CRAs são negociados no mercado secundário via corretoras, mas a liquidez é limitada. Diferente do Tesouro Direto (com recompra garantida pelo governo), não há obrigação de recompra antes do vencimento.

Na prática:

  • Você pode vender antes do vencimento, mas precisa encontrar um comprador
  • Em momentos de stress, o spread comprador/vendedor pode ser alto
  • Pode haver variação de preço significativa (marcação a mercado)

Regra prática: invista em CRI/CRA apenas com capital que você não precisará nos próximos 2 a 5 anos. Nunca coloque reserva de emergência nesses títulos.

Comparativo Completo: CRI/CRA vs. Debêntures vs. LCI/LCA

CritérioCRI/CRADebêntures incentivadasLCI/LCA
Isenção IRSimSimSim
Cobertura FGCNãoNãoSim
SetorImobiliário/AgroInfraestruturaImobiliário/Agro
Rentabilidade típicaAltaAltaMédia
LiquidezBaixaBaixa a médiaMédia
Risco de créditoMédio a altoMédioBaixo
EmissorSecuritizadoraEmpresaBanco
Rating obrigatórioNão (mas recomendado)NãoNão (banco regulado)

Para aprofundar na comparação com debêntures, veja nosso artigo sobre debêntures: o que são e como investir.

Como Comprar CRI e CRA

O acesso ao CRI e ao CRA é feito exclusivamente por meio de corretoras credenciadas. As principais plataformas com boa oferta são:

  • XP Investimentos: maior prateleira de CRIs e CRAs
  • BTG Pactual Digital: curadoria de qualidade com bom acesso ao mercado secundário
  • Rico: acesso à prateleira XP com interface mais simples
  • Órama: seleção criteriosa de emissões

O investimento mínimo depende da emissão: novas emissões (mercado primário) costumam ter mínimo de R$ 1.000 a R$ 10.000. No mercado secundário, é possível encontrar lotes a partir de R$ 1.000.

Consulte nosso comparativo completo das melhores corretoras para renda fixa em 2026 para escolher a plataforma ideal.

Tributação e Declaração

Embora isentos de IR, CRIs e CRAs precisam ser declarados:

  • Ficha Bens e Direitos: informe o saldo em 31/12 pelo código específico
  • Ficha Rendimentos Isentos: informe os rendimentos recebidos no ano

O informe de rendimentos da corretora conterá todas essas informações para facilitar a declaração.

Exemplo Prático de Retorno

Considere um CRA com as seguintes características:

  • Taxa: IPCA + 7,5% ao ano
  • Prazo: 5 anos
  • Investimento: R$ 20.000
  • IR: zero (isento)

Com IPCA médio de 4% ao ano, o retorno nominal será de aproximadamente 11,5% ao ano. Em 5 anos, R$ 20.000 se tornam aproximadamente R$ 34.200 — sem pagar um real de imposto.

O mesmo capital em um CDB tributável precisaria render ~13,5% bruto para entregar a mesma rentabilidade líquida (considerando 15% de IR para prazo superior a 2 anos).

Perguntas Frequentes

CRI e CRA têm garantia do FGC?

Não. Diferente de CDB, LCI e LCA emitidos por bancos, o CRI e o CRA não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos. O risco de crédito recai sobre o devedor dos recebíveis subjacentes.

Qual a diferença entre CRI e LCI?

Ambos financiam o setor imobiliário e são isentos de IR, mas LCI é emitida por bancos (com proteção do FGC) e CRI é emitido por securitizadoras (sem FGC). O CRI tende a pagar taxas maiores para compensar o risco adicional.

Posso vender meu CRI antes do vencimento?

Sim, no mercado secundário. Mas a liquidez é limitada — pode ser difícil encontrar comprador a um preço justo, especialmente em momentos de instabilidade. Planeje investir com horizonte até o vencimento.

Qual o investimento mínimo para CRI e CRA?

Varia por emissão. No mercado primário, o mínimo costuma ser R$ 1.000 a R$ 10.000. No secundário, é possível encontrar lotes menores. Algumas emissões têm mínimo de R$ 300.000 para investidores qualificados.

CRI e CRA são adequados para iniciantes?

Em geral, não são o melhor ponto de partida. A falta de FGC, a baixa liquidez e a necessidade de análise de crédito os tornam mais adequados para investidores com alguma experiência. Iniciantes devem priorizar Tesouro Direto, CDB e LCI/LCA.